Suzana Nunes
A beleza está nos olhos de quem lê.
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COMO ABRIR UMA PORTA

 
Você já tentou compartilhar com alguém algum problema, sofrimento ou dor que estivesse passando na vida, e saiu da experiência pior do que antes? Às vezes, pessoas boas e bem intencionadas podem piorar o que já está ruim, e nos deixar pior. E na maioria das vezes, nem conseguimos explicar por quê e elas, então, nem imaginam!

Ao longo da vida, tendo a oportunidade de passar por experiências como estas, me pus a refletir: De que forma podemos ser melhores amigos, melhores companheiros, melhores ouvintes, melhores em ajudar alguém que sofre?

Gostaria de poder compartilhar com você alguns pontos que encontrei, durante minhas reflexões.

A toda dificuldade, problema, sofrimento ou necessidade de alguém, chamaremos, neste texto, de dor. Cada uma delas é uma dor.
O que procuramos, quando compartilhamos uma dor pessoal com alguém? Creio que este seja o ponto de partida para entender o que podemos fazer, de maneira melhor, quando formos procurados.

A primeira coisa que uma pessoa espera receber quando procura alguém para compartilhar uma dor é que quem nos ouve acredite que aquela dor é real. Quem me ouve precisa demonstrar para mim que acredita que a minha dor dói! Digo isso porque nem sempre acreditamos. Nem sempre conseguimos compreender por que algo causa dor ao outro. E por quê? Porque cada um de nós enxerga a realidade e sente o mundo de uma maneira completamente única. Algo que pode ser totalmente indolor para você, pode me fazer sofrer, e vice-versa. Nossas construções emocionais, psíquicas, sociais, familiares são os óculos através dos quais vemos o mundo, e assim, o sentimos.

Portanto, precisamos ter a humildade e fazer um esforço verdadeiro para crer que, a despeito de não entendermos o porquê, compreendemos que a dor do outro é real para ele, de alguma maneira. Esta é a condição primordial para que possamos realmente ajudar alguém. Assim, se torna desnecessário ter passado pela mesma experiência para conseguir exercer empatia pelo outro. Você nunca sentiu, mas você crê que o que o outro sente é real. E assim, você passa a ser capaz de validar a dor do outro.

Validar a dor do outro significa demonstrar que, apesar de nunca ter passado, você não considera aquela dor menor, boba, infantil, desnecessária, superdimensionada, drama, falta de fé, falta de força de vontade, ou qualquer outro tipo de eufemismo que as pessoas costumam usar. Você está passando para ele a mensagem: “ eu valido o que você sente, entendo que é importante para você e estou interessado.”

Esta é a chave que abre uma porta para que outras pontes possam ser construídas posteriormente. Através dela, você poderá, depois, propor uma solução, incentivar uma nova postura, apresentar uma outra perspectiva, chamar a pessoa para alguma atividade que a anime, ou qualquer coisa que você pense em fazer para ajudá-la. Mas primeiro a pessoa precisa se sentir validada em sua dor. Precisa sentir que você acredita que aquela dor é legítima. Do contrário…

Do contrário, a pessoa imediatamente se fecha. Seu cérebro, como uma forma de proteção, não ouvirá mais nada. Ela vai erguer uma barreira para você, e pode até mesmo fingir que te ouve e te dá razão, mas por dentro a pessoa estará decepcionada e ansiosa para terminar a conversa, porque você foi só mais um que não entendeu o que ela sente e não “deu o valor devido” ao que ela tentou compartilhar.

Vou dar um exemplo emblemático de uma historia bem conhecida:
Jesus foi avisado que seu grande amigo Lázaro estava doente. Ele se dirigiu para a casa do amigo e, como demorou alguns dias para chegar, Lázaro faleceu e foi sepultado. Jesus consolou as irmãs enlutadas e disse que ressuscitaria seu irmão. Depois disso, segue-se um trecho interessante:


 
Jesus pois, quando a viu chorar, e também chorando os judeus que com ela vinham, moveu- se muito em espírito, e perturbou-se. E disse: Onde o pusestes? Disseram-lhe: Senhor, vem e vê. Jesus chorou. Disseram pois, os judeus: Vede como o amava.
                                                  (BIBLIA SAGRADA ACF, João 11: 33-36)

 
Ora, segundo o Cristianismo, Jesus era onisciente de sua condição de Salvador e senhor da vida e da morte. Já havia dito que ressuscitaria Lázaro, mas então, por quê chorou? Nenhuma resposta me parece mais coerente do que “Ele sentiu a dor do outro”. E assim fazendo, as pessoas em volta exclamaram, surpresas: “Vede como o amava”. Não lemos Jesus menosprezando o sofrimento das irmãs, não o vemos tentando animá-las chamando para fazer um pão, não pediu para descansar primeiro da longa caminhada para depois ir à sepultura (afinal, ele tinha a solução e elas podiam, portanto, esperar) ou dizendo que a morte é uma bobagem. Ele simplesmente chorou. E…depois disso…imediatamente agiu. Que grande modelo temos para aplicar aos nossos relacionamentos!

Não significa que temos que chorar no sentido literal toda vez que alguém vier compartilhar uma dor conosco. Significa que o outro precisa perceber e sentir que é legitimado no que sente. Ou seja, que nós acreditamos que o que sente é real, importante e sério. Por isso os grupos de apoio em redes sociais chamam cada vez mais interessados - pessoas com dores semelhantes se juntam para, mais do que se informarem, apoiarem-se, se validando umas às outras naquilo que o mundo quase nunca o faz. 

Como portadora de fibromialgia, nos grupos que participo às vezes as pessoas escrevem postagens assim:

“Está doendo muito hoje!”

Aí a gente pensa: ”Pra quê, né? Pra aparecer? Pra se lamentar, chamar atenção, se lamuriar da vida?”

Não. Para ler um comentário assim: “Eu entendo perfeitamente. Também estou assim.” ou: “Eu compreendo quão difícil é, porque também sinto. Mas lembre-se que não é assim todo dia: amanhã será melhor” ou ainda: “Sei como é terrível. Toda vez que acordo assim, faço isso e isso e aquilo…por quê você não tenta? Se der certo volta aqui pra nos contar”.

Nas minhas reflexões, me pego pensando que não é preciso termos a mesma dor para conseguirmos demonstrar que nos importamos e sermos um grupo de ajuda no nosso círculo de convivência, se aprendermos a fazer o outro se sentir compreendido.

Da próxima vez que alguém compartilhar qualquer tipo de “dor” com você, tome cuidado. Não pule esta etapa. Não seja tão afoito em consolar e mostrar que a vida é bela, que há um lado positivo e colorido em todas as coisas, e que "tudo é fácil de se resolver, basta realmente querer e fazer alguma coisa." Primeiro, demonstre empatia, e então, as portas do coração e da mente da pessoa se abrirão. Porque se você atropelar as coisas…todos os esforços seguintes serão desperdiçados e a pessoa passará a te evitar. Trocando em miúdos: quando alguém entende a dor que a gente sente, dói menos. Quando alguém demonstra não dar a devida importância, dói mais. E ninguém quer ficar perto de alguém que faça sua dor doer mais!

Que você possa ser o bálsamo para as dores das pessoas a sua volta, e que suas dores sejam validadas também, porque todas elas importam.





 
Suzana Nunes
Enviado por Suzana Nunes em 27/07/2020
Alterado em 28/07/2020
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