Suzana Nunes
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ENTERRAR SEUS MORTOS: O CICLO DO RENASCIMENTO.


Abrir mão dos nossos planos e sonhos nao é tarefa fácil. Principalmente se investimos anos de dedicação, esforços e expectativas. Se moldamos nossas vidas na medida daqueles sonhos. E se não nos preparamos minimamente para a chance, real e inegável, de dar errado.

Relações familiares estão no rol dos sonhos hercúleos para se desfazer. Relacionamentos amorosos, quando houve muito investimento emocional, temporal, laboral, e quando envolvem terceiros, tornam-se quase uma sentença indissolúvel. No entanto, na medida em que amadurecemos, aprendemos que alguns relacionamentos simplesmente...acabam. Eles tem prazo de validade por inúmeros motivos. Não é o foco discutir os motivos aqui mas enfrentar a realidade de que alguns deles morrem. Eles morrem, mas não sem antes convalescer, moribundos, por um período considerável de tempo, nos causando feridas, traumas e marcas indeléveis.

Terminar um relacionamento de grande envolvimento emocional é como morrer. É uma dor de morte, mas nao para a morte. Uma dor de morte para nascer de novo.
Como toda dor, procuramos evitá-la. Algumas pessoas têm mais resistência à dor. Enfrentam sem medo, ou disfarçam o medo. Outras, fogem. Se debatem, se escondem. Independentemente de como reagimos, a dor é inevitável. O que muda é nossa capacidade de lidar com ela.

Vou repetir pra você: separar-se é como morrer. Dói como uma morte. Nao importa quem sai e quem fica. Sempre dói. Uma coisa é estar com o defunto ali de corpo presente velando por ele. Outra coisa é enterrar e ir embora. Essa é a hora mais doída. Você terá que se virar e encarar que a vida não é mais a mesma. Se vc nao perdeu alguém próximo ainda, vai saber quando acontecer.

Com um relacionamento é a mesma coisa. Quando ele ja convalesceu, ficou moribundo, respirou por aparelhos, e nao resta mais nada, é um defunto. Mas nos negamos a enterrar. Ficamos ali velando o corpo, chorando aquele corpo, e passa a ser quase uma religião velar aquele corpo. Com o tempo...porém...o corpo começa a feder. Incomoda. Dá bicho. Apodrece. E começa a contaminar a todos da casa. Ate que, nao tendo outra alternativa, a gente se vê forçado a enterrar.

Teria sido sábio enterrar assim que morreu. Mas nós seres humanos não somos assim. Queremos manter o status quo, segurar mais um pouco, pensar na opinião das pessoas, nas coisas práticas que vao ficar mais difíceis mesmo sabendo que...todos nos adaptamos.

Abrir mão definitivamente de um relacionamento é admitir um fracasso. Quem se sente confortável com isso? Acontece que o fracasso faz parte da nossa vida terrena.Ele vem em formatos variados, pra mim...e pra você. Mas ele vem.

E chega entao um ponto de onde não há retorno e precisamos, pra sobreviver, nos livrar daquele defunto. Mesmo assim...com o defunto podre e contaminado, transmitindo doenças....vai doer enterrar e ir embora.

Podemos ter algumas tentativas frustradas de enterrar esse morto. E trazemos de novo o trambolho pro centro da sala. Está mole, nao tem mais forma. Está literalmente se desmanchando. Nao parece mais um corpo. Mas...Está lá. Ele fica la numa espécie de altar, quase como um santo às avessas, amaldiçoando a todos com tudo de ruim e fornecendo o suprimento de sofrimento diário do qual todos se alimentam numa relação simbiótica e disfuncional.

Enterrar esse morto significa caminhar em outra direção, construir novas historias, novas pontes, aprender um mundo de coisas que você  jamais imaginou fazer de novo sozinho na vida. É como nascer. É como nascer de novo. É como morrer para nascer de novo. E isso dói. 

Por mais que voce adie...um dia voce vai precisar enterrar seus mortos para poder viver. Acredite em alguém que entende de parentes mortos e relacionamentos enterrados: a vida segue. Voce escolhe até quando esperar para seguir em frente. Ou você pode ficar, se contaminar e morrer da própria doença: a falta de coragem para enfrentar seus medos e começar de novo.

Enterre seus mortos. Guarde as coisas boas. Transforme as ruins em lições. Tape bem com terra. Remova os vestígios do que não prestava. Plante um jardim sobre a terra. Sementes. Podem ser sementes de amizade, perdão ou de indiferença. Mas qualquer uma delas será melhor do que deixar de viver esperando que um morto ressuscite. Podem demorar a brotar mas...se voce regar com cuidado e paciência, um dia pode ser presenteado com algumas flores.

Dê as costas e comece a dar passos e redescobrir o mundo. Faça coisas novas. Nao seja exigente demais consigo mesmo. Chore as vezes. Permita-se sentir medo...aprender devagar...precisar de ajuda.
Respire fundo o ar puro, limpo, e abra os braços para sua nova vida.
Voce acaba de nascer.

Suzana Nunes

Obs. Sobre fantasmas: Ou eles nao existem ou existem para serem ignorados.
Suzana Nunes
Enviado por Suzana Nunes em 07/05/2018
Alterado em 21/06/2020
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