Suzana Nunes
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"VOCÊ SABE O QUE É RESILIÊNCIA?"

Perguntinha feita pela professora na faculdade, sugerindo tema para pesquisa. A maioria de nós nunca tinha ouvido falar. Resiliência, segundo o dicionário, é um termo oriundo da Física para designar a capacidade que alguns materiais têm de acumular energia quando necessário e logo depois voltar ao seu estado original.

Este termo tem sido emprestado para outros ramos, entre eles Psicologia, Administração e Pedagogia, como a capacidade para vencer os desafios, superar os obstáculos e restabelecer o equilíbrio após um período de crise. Vem sendo cada vez mais abordado nos meios empresariais e educacionais como um atributo essencial ao profissional moderno, frente às rápidas mudanças sofridas pelo mercado no chamado mundo globalizado. Quanto mais resiliente for o indivíduo, ou seja, quanto maior capacidade tiver de transpor as adversidades, mudando rapidamente de plano e restabelecendo seu equilíbrio, melhores chances de se tornar um profissional de sucesso.

Parece, porém, que quanto mais o mercado exige novos atributos de nós, trabalhadores, menos a sociedade em que vivemos nos prepara para tal. É preciso acordar para estas necessidades e traçar um plano para atingi-las, portanto, desde muito cedo. Como não se pode esperar que a criança tenha tal grau de consciência, mais uma vez a responsabilidade recai sobre os ombros da escola.

A não muitos anos atrás, os valores trazidos pela família e as características de personalidade não contavam tanto na hora de selecionar um profissional para uma vaga de emprego. Hoje a realidade é outra. Fatores como otimismo, capacidade de relacionar-se, empatia, a capacidade de manter-se calmo sob pressão e o controle dos impulsos têm grande peso na hora de se empregar um funcionário. E onde se aprende todas essas habilidades? Até a geração passada não seria fora do próprio lar ou da instituição religiosa. No entanto, estas variáveis – índices de resiliência – estão agora sendo exigidas e cobradas pelo mercado profissional. Por isso, o setor educacional, como determinante do mundo do trabalho, precisa estar “antenado” a estas novas exigências, e preparado para satisfazê-las.

Cada um de nós conhece pelo menos um exemplo de resiliência. Talvez um parente, um antigo amigo que, em determinado momento da vida, foi exposto ao mais alto grau de dificuldade e sofrimento e, através disso, tornou-se uma pessoa melhor, superou os desafios e as expectativas de todos, seguindo com sua vida mais forte e mais saudável do que antes. Aquele que popularmente “enverga mas nunca quebra.” Pois bem, este é o resiliente. E é este tipo de capacidade que a escola sente-se desafiada a ensinar, e despreparada também. Tabuada e tabela periódica não bastam mais. Se de um lado o setor da Educação resiste a estas mudanças, alegando ser este um tipo de atitude mental que advém da família e do ambiente total em que o indivíduo nasce e é educado, por outro lado precisa se render ao fato irrefutável de que tudo que se torna exigência do mercado de forma permanente passa também a fazer parte das prerrogativas da escola.

Enquanto o mundo torna-se rapidamente um celeiro de facilidades, com confortos e pequenas necessidades que para nossos pais seriam supérfluas, enquanto aprendemos a apertar o botão para preparar a comida congelada em cinco minutos, vemos por todo canto o caos se instalando com as intempéries da natureza, como terremotos, tsunamis e calamidades climáticas. Os avanços tecnológicos pouco ou nada podem fazer quanto a isso, pelo contrário, em muito contribuíram. E então, vemos nossa fortaleza de facilidades onde nos trancamos voar como o vento.

Não estamos preparados para as dificuldades das quais ninguém foge. Não aprendemos coisas tais como recomeçar uma vida do zero, reconstruir tudo, seguir adiante sem mergulhar na depressão, pois temos passado a vida lendo apenas manuais de instrução e aprendendo a apertar botões. Então alguém chega e nos avisa de que quem não estiver preparado para lidar com as dificuldades, está fora do mercado. Mas se é a facilidade aquilo que perseguimos a todo custo, se somos incentivados a ter cada vez menos trabalho, menos surpresas, e se a tecnologia nos propõe que é possível apenas apertar um botão para resolver a maioria dos problemas no mundo de hoje, como podemos aprender a ser resilientes, superar desafios, vencer sofrimentos e solucionar problemas? Estamos montando para nós mesmos um castelo de cartas muito frágil, o qual quando cair, não saberemos por onde começar para construir tudo de novo. Precisamos aprender resiliência não só para o trabalho, mas para a nossa vida pessoal que, quanto mais cheia de facilidades, mais frágil se torna.

Lembremo-nos dos povos que tiveram suas vidas e nações dizimadas pela guerra ou pestes, dos imigrantes fugindo da morte nos campos de concentração e da fome, pessoas que reconstruíram suas vidas e se tornaram bem sucedidas em sua própria terra ou em lugares distantes. Quanto desta capacidade a sociedade de hoje ainda guarda consigo? Não guarda, mas cruelmente exige.

Neste mundo de contradições, o caminho mais curto e certamente o mais procurado é o de jogar a responsabilidade nos ombros da escola. Tudo que a sociedade não dá mais conta, que a família não atinge mais, vira trabalho do professor. E ele tem que “se virar”. Portanto, nada de ficar reclamando. As coisas são como são, e precisamos encará-las. Do que não se pode fugir, resta-nos enfrentar. E se olharmos mais de perto, talvez não haja classe de trabalhadores mais preparada para ensinar resiliência do que os professores do nosso país.

Em matéria de resistir à pressão, superar desafios e planejar com poucos recursos, os professores estão preparados para ensinar pelo exemplo. São uns dos poucos que ainda não perderam os valores e habilidades que nossos avós - sem controles remotos e fornos de microondas - ainda tinham de sobra, e que hoje seremos forçados a aprender na escola.

  SU  

Suzana Nunes
Enviado por Suzana Nunes em 03/03/2010
Alterado em 27/01/2011
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