Suzana Nunes
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 ADEUS A UM VIRA-LATAS

Meu filho mais velho, como a maioria dos meninos da idade dele, é fã do Homem Aranha. Quando ele e o caçula ganharam um filhotinho de cachorro, batizaram-no de Peter Parker. Achei que um animalzinho faria bem aos dois e seria uma fonte de conforto, nos primeiros meses após minha separação.

Mas o bichinho não durou muito. Contraiu uma doença dessas que dá em filhotes, e não pudemos fazer nada. Quando morreu, foi um baque para os dois, e eu fiquei preocupada...

Um dia na mesma semana, ao abrir a porta da sala, dou de cara com uma vira-latas amarelada, daquelas bem sem-vergonha mesmo, abanando o rabo pra mim. Tentei espantar antes que os meninos vissem, dei vassourada, joguei água, e nada. Ela não saía. Bom, meus filhos acordaram, viram, fizeram aquela festa, e em seguida a pergunta que eu temia: “A gente pode ficar com ela mãe? Deixa...”

Com aquelas carinhas, imagina...nem preciso falar o resto. Mas eu fui firme: “Mas vocês dois é que vão cuidar, dar comida, e limpar a sujeira!”

A cadela, apesar da insistência dos meninos, queria mesmo era ficar comigo. Não desgrudava de perto de mim um minuto, e passou a me seguir por todo canto. Até na escola onde eu dava aula ela ia atrás de mim. Mary Jane, como a chamamos, ficou conhecida no bairro, por onde eu passava, pois se tornou a minha sombra. E assim foi, aos poucos, passando a fazer parte da família. Cadela boa, muito boa esta. Umas coisas assim que a gente não sabe explicar. Não sei de onde veio, por quê cismou com a minha cara, mas o fato é que ela ficou ali, e conseguiu preencher um vazio deixado pelo outro animal, suprindo assim a carência emocional que eles carregavam.

Quando a Mary Jane ficou prenha eu fiquei muito aborrecida. Já era difícil cuidar de duas crianças sozinha, imagine de uma cria de filhotes. Era só o que faltava. Os meninos acompanharam a prenhez ansiosos, todo dia iam medir a barriga da cadela, imaginar os filhotes, escolher nomes. Combinamos que íamos dar todos menos um.

Nasceram cinco. Meus filhos acompanharam o parto, atentos, preocupados, de olho em tudo e fazendo mil perguntas. Foi um acontecimento!

Quando um deles morreu, Mary Jane veio na porta da sala avisar. Bateu o rabo na porta até eu sair pra ver. Olhou em direção a ele e esperou que eu retirasse o corpinho, de cabeça baixa. Pela manhã foi uma tristeza.

Até agora, ao todo, morreram três. Acho que nasceram fraquinhos, provavelmente a primeira cria da mãe. Hoje eu enterrei o terceiro, meus filhos em volta, olhos marejados, posição de reverência, enquanto eu cavei o buraco e depositei o bichinho gelado lá dentro. Mary Jane ficou de longe, virada para a parede, esperando eu terminar o serviço.

Enquanto eu acabava de tapar a pequena cova, fiquei pensando que idéia estúpida foi deixar aquela cadela ficar em casa. Devia tê-la expulsado no primeiro dia, uma cadela de rua, que estava me dando muito trabalho e dor de cabeça, vivia com pulgas, e agora aqueles filhotes pra entristecer meus filhos e sujar minha varanda.

Ao procurar pelos dois, vi que estavam lá, em volta dela, fazendo carinho na cabecinha tentando consolá-la. Cada um segurava um filhote que restara no colo, enquanto que com a outra mão, acariciavam-lhe o pelo, com tristeza. Ouvi o mais novo dizer: “A gente também gostava dele, Mary. Ele foi para o céu dos cachorrinhos.”

Parei e olhei por um instante aquela cena. Percebi então que todo o trabalho que tive com aquela vira-latas e sua cria compensavam, pelas experiências que meus filhos puderam viver, e pelas lições de amor, cuidado e respeito que tive a oportunidade de ensinar. 

Suzana Nunes
Enviado por Suzana Nunes em 11/11/2009
Alterado em 11/11/2009
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