Suzana Nunes
A beleza está nos olhos de quem lê.
Capa Textos
Textos
                                                 MENTIRAS NO DESERTO

Bem no meio da viagem, assim, de repente, eu tive que descer. Estava no meio do deserto, e a areia me queimou os pés.

Achei, à primeira vista, que não tinha como sobreviver.
Aquele que me empurrou para fora disse que faria sombra, para que o sol não queimasse meu rosto. Era mentira. Com o tempo, minha pele tornou-se escura e grossa, e eu não precisei mais de sombra para me esconder.

Por causa das lendas sobre o deserto, achei que encontraria a lâmpada do Aladim. Seria só esfregá-la e pronto, estaria livre. Mas esta história que me contaram também era mentira. Eu precisava continuar andando, ainda que com os pés em brasas.

Meus pés, antes finos e macios, tornaram-se áridos como os de um camelo. E já não doía mais, na areia escaldante.

À noite, no deserto, faz frio e a escuridão é densa. Disseram-me que haveria uma tenda pra me proteger. Não havia.

Ao longe, caravanas passando, as pessoas me acenavam, sorridentes. E de longe diziam: “Isso mesmo, continue. Parabéns, já andou bastante.” E sorrindo seguiam, fazendo festa, sua jornada. E eu fiquei.

Disseram-me que atrás daquela árvore morta havia um banco onde eu poderia sentar e descansar. Eu fui ver, e era mentira.

Disseram que tinha um oásis no meio do deserto. Mas era mentira. Tinha só o deserto mesmo. E eu aprendi a lidar com a sede.

Aprendi a superar meus próprios limites. Aprendi a lidar com a fome, com as miragens, com as vertigens. No deserto, quase tudo é mentira. A única verdade é você mesmo. O resto todo é ilusão.

Por isso poucos sobrevivem a ele. Perdem-se no meio das miragens, procurando tesouros que nunca existiram, apenas na cabeça de viajantes afetados pelo sol, e dos espertos que não vão pensar duas vezes antes de se aproveitar da sua ingenuidade. Cuidado com os espertos que te oferecem sombras. Invariavelmente é mentira.

O deserto, com suas mentiras, é o único lugar capaz de fazer você conhecer sua própria verdade. A verdade de quem você realmente é. Pois é a única que, de fato, importa para salvar sua vida.

Ao sair do deserto, aprendi muito sobre mentiras, ilusões e miragens. Hoje no entanto, eu sei quem sou. Quem passa pelo deserto com água, sapatos, sombra, descanso, camelos, oásis e lâmpadas de Aladim, não conhece o deserto. E consequentemente, não conhece a si mesmo.

Ainda tem um bocado de areia entre meus dedos. Às vezes corta, e ainda dói. Mas eu não tenho mais medo do deserto. Porque aprendi que sou mais forte que ele. E vou sobreviver.
Suzana Nunes
Enviado por Suzana Nunes em 20/09/2009
Comentários